Desvendando o Escorpião

Escorpião talvez seja um dos signos mais fetichizados, para o bem e para o mal, nas leituras mais corriqueiras e memes de toda sorte. Antes de comentar um pouco sobre, a gente relembra algo que, pro tipo de Astrologia que praticamos aqui é fundamental: signo não faz nada. Signo é cenário, território, disposição e contexto para ação dos Planetas.  

Assim sendo, vejamos como os planetas se comportam aí: Marte está em casa. É o planeta regente de Escorpião: o significador universal das guerras, da violência, cortes, sangue derramado, atividades físicas tem ali seu domicílio noturno. A intensidade do ferrão e a potência de seu ataque, certeiro e profundo. Ao mesmo tempo é nesse cenário que Vênus tem seu exílio. Ela que versa sobre beleza, harmonia, prazer, sexo, amor e gozo não se sente nada confortável com o ambiente de intensidade fixa das águas profundas de Escorpião, que desconhecem limites quando obstinadas. É também essa fixação e insistência que conferem à Lua, senhora das nossas emoções, doadora de vida, responsável pela nossa saúde mental e nosso humor, a debilidade da queda.

Marte é senhor do ferro e da forja, com a qual só se trabalha nos extremos das temperaturas. A força de Escorpião está na capacidade de suportar a dor ao mesmo tempo em que existe a vontade de insistir no desejo e no gozo. Mas um gozo que se exalta nas águas de Peixes, que são dadas ao movimento, e às emoções mais sutis, não menos avassaladoras, mas sobretudo expansivas. O gozo em Escorpião é uma questão muito mais de disputa, que submete o corpo e não o contrário; enquanto, por exemplo, em Touro, domicílio de Vênus, o sexo é a delícia da carne e das sensações.

É recorrente a associação imediata dos signos com as casas a contar da I como o primeiro signo. de forma que Escorpião seria a casa VIII. Apesar de algumas semelhanças entre algumas casas e signos, se contados dessa forma, não julgamos aqui que essa seja uma relação que se aplique. De modo que atribuir a Escorpião os assuntos de casa VIII automaticamente não exatamente clareia, mas pode mesmo é confundir. E se o assunto é casa, cabe lembrar algo caro à tradição: SEXO é assunto de casa V, não de casa VIII. Casa V, onde Vênus se jubila duplamente. Casa VIII é a casa da Morte.
Se olharmos o caráter puramente físico do ato sexual, o entrelaçar dos corpos, podemos enxergar então uma faceta marciana, mas o gozo e o prazer, são venusianos. Logo, essa hiper sexualização do signo não faz muito sentido.

Na verdade, até me incomoda pensar nas relações sociológicas que a associação do sexo com Marte e não com Vênus desencadeiam, pensando no mundo em que a gente vive. Seja no que tange à opressão à sexualidade feminina e a super valorização do falo e o entendimento limitado de que sexo resume-se à penetração. Marte é o senhor da violência. Sexo é gozo, é sutileza. É possível sentir muito prazer através de embates agressivos dos corpos – quem sou eu pra julgar ou moralizar isso!, mas o grande problema de pensar o sexo dessa forma é tirar dele a sutileza das sensações, da leveza dos toques. Sexo é escolha, proporcionar prazer é saber tocar e trocar, é descobrir o momento, saber a hora de parar e prosseguir, afinal, o outro domicílio de Vênus é justamente a exaltação de Saturno: limite, tempo e ponderação libriana.

isabela morais 

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